Parte da série sobre a
Umbanda
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História da Umbanda
Instituições
Federações e associações de umbanda e candomblé
v • e
A umbanda, também conhecida como embanda e magia branca,
é uma religião brasileira, cuja evolução a partir do sincretismo
religioso existente no país (principalmente a partir das religiões
afro-brasileiras e do kardecismo)1 foi resultado de motivações diversas,
inclusive de ordem social, que originaram um culto à feição e moda do país.
"Umbanda" e "embanda" são oriundos da língua quimbunda de Angola, significando
"magia"2 , "arte de curar".3 Já os autores de vertente esotérica fazem alusão
ao sânscrito, a partir da junção dos termos Aum e Bandha, significando o elo
entre os planos divino e terreno. A palavra mântrica Aumbandhan teria sido
passada boca a boca e chegado até nós como "A Umbanda".
O sincretismo religioso no Brasil, ou seja, a mistura de concepções, fundamentos,
preceitos, ritualísticas e divindades se processou num quádruplo aspecto: negro,
índio, católico e espírita, porque outros foram menos dominantes, ou superficiais
e restritos a certas áreas. O marco inicial surge com a escravatura do índio feita
pelos primeiros colonizadores portugueses no Brasil. Entretanto, o aborígene,
pelas suas características de raça, de elemento da terra, conhecedor das matas,
espírito guerreiro exaltado, tendo a liberdade como apanágio de toda sua vida,
não aceitou o jugo da escravidão. Tinha, contudo, uma crença no espírito e suas
religiões. A influência do índio contribuiu para a formação da umbanda fornecendo
elementos da sua mitologia e cultos, tais quais a pajelança, o toré, o catimbó,
entre outros. Ademais, o caboclo, mestiço do índio que incorporava em suas
manifestações, foi consolidado na prática umbandista.
O colonizador português, portanto, foi buscar, nas terras africanas, o elemento
negro, o qual oferecia condições mais favoráveis para os misteres da lavoura,
já conhecidos nas regiões de origem. Desse modo, houve um circuito branco-índio-negro
que contribuiu sobremaneira para o complexo da formação brasileira, nele ressaltando,
como uma constante, a religiosidade em vários aspectos. Na época das senzalas,
os negros escravos costumavam incorporar o que se conhece hoje como pretos-velhos,
antigos escravos, que ao se manifestarem, compartilhavam conselhos e consolo
aos escravos. O sincretismo católico, produto da simbiose dos cultos de escravo
e escravocratas no Brasil, chegou a tal ponto que se cultiva um orixá com nome
e imagem do santo católico, não se podendo diferenciar em certas exteriorizações
onde começa um onde termina o outro. São flagrantes os casos de São Jorge, Ogum,
Nosso Senhor do Bonfim, Oxalá, São Cosme e São Damião, Ibeji, e Santa Bárbara,
Iansã. Não raro, muitos chefes de terreiro mandam rezar missas e se declaram também
católicos, além de haver um grande número de praticantes que frequentam as duas
religiões. Houve, portanto, uma consolidação do santo católico, admitido já sob o
aspecto de espírito superior, de guia-chefe ou como orixá, enquanto os candomblés
procuraram mais se distanciar do sincretismo e não aceitar as imagens.
O primeiro relato histórico, segundo Cavalcanti Bandeira, cabe a Nina Rodrigues,
falecido em 1906, quando já estava quase pronta a impressão do seu livro Os africanos
no Brasil, referente aos estudos feitos entre 1890 e 1905, nos quais consta a descrição
de um ritual praticado na Bahia, o mais semelhante da Umbanda atual, que é o seguinte:
Cquote1.svg Entre os casos que poderíamos citar, tomamos por sua importância à
pastoral de um Prelado Brasileiro ilustre a descrição eloquentíssima do Cabula, por
ele estudada, que mais não é do que uma instituição religiosa africana sob vestes
católicas.
—
Diz João Corrêa Nery:
Cquote1.svg A cabula: houve alguém que disse ser grande e mais prejudicial do
que pensamos, a influência exercida pelos africanos sobre os brasileiros. Parece
mesmo que muito se tem escrito nesse sentido. Em certa região de nossa Diocese,
tivemos, em nossa última excursão, oportunidade de observar a verdade desse
asserto. Encontramos três freguesias largamente minadas por uma seita misteriosa
que nos parece de origem africana. Nossa desconfiança mais se acentuou, quando
nos asseveraram que antes da libertação dos escravos, tais cerimônias só se
praticavam entre os pretos e mui reservadamente. Depois da lei de 13 de maio,
porém, generalizou-se a seita, tendo chegado, entre as freguesias, a haver
para mais de 8.000 pessoas iniciadas. Bem que agora esteja privada dos
elementos mais importantes, que infelizmente possuiu outrora, ainda encontramos
crescido número de adeptos. O tom misterioso e tímido com que nos falavam a seu
respeito e a notícia da grande quantidade de iniciados ainda existentes, nos
levaram, não só a procurar do púlpito invectivar essa tremenda anomalia, como
também a tomar algumas notas que oferecemos à consideração e ao estudo dos
curiosos. Graças a Deus nosso trabalho não foi inútil. Tivemos a "consolação"
de ver centenas de cabulistas abandonarem os campos inimigos e voltarem novamente
a N. S. Jesus Cristo, ao mesmo que tempo que, de muito bom grado, nos forneciam
informações sobre a natureza, fins da associação que pertenciam. A nosso ver a
Cabula é semelhante ao Espiritismo e à Maçonaria, reduzidos a proporções para a
capacidade africana e outras do mesmo grau. Em vez de sessão, a reunião dos
cabulistas tem o nome de mesa. O chefe de mesa é chamado de embanda e é secundado
nos trabalhos por outros chamados cambones.
Cquote2.svg
—
União Espiritista de Umbanda do Brasil, a Casa Mater da umbanda. Foto de André
Luiz Pereira Nunes
Pensa-se que a expressão embanda possa ser uma corruptela do termo Umbanda ou
Quimbanda, mas de qualquer modo demonstra a antiguidade do ritual na Bahia,
Espírito Santo e Rio de Janeiro, já no século XIX, onde teve a linha mestra
de uma de suas origens sob certos aspectos.
Na descrição do ritual cabulista, é identificado o bater das palmas, as vestes
brancas, a disposição das velas em sentido cabalístico como nos riscados, a engira,
hoje gira, o modo de aceitar um novo membro do corpo de médiuns da casa, em alguns
a iniciação dos profitentes do culto, a chegada do santé que é o santo como hoje
se diz, a marcação de pontos, além do cambone, o chamado assistente cambono.
Uma referência com outra data precisa se encontra no livro Religiões Negras,
de Edison Carneiro, 1963, em que surge à tona o nome umbanda ao referir: "nos
candomblés de caboclo, consegui registrar as impressões umbanda e embanda,
sacerdote do radical mbanda: Ké ké mim ké umbanda. Todo mundo mim ké Umbanda.
"De acordo com Cavalcanti Bandeira, Edison Carneiro, em 1933, teria estado na
Bahia para fazer essa verificação. Assim, teve a primazia de fixar num livro
brasileiro a palavra Umbanda, sem qualquer alteração, com essa grafia, em
relação a um fato no culto que estudou naquele estado.
Pode ser fixado o ano de 1905 para a Guanabara, como marco, quando João do
Rio publicou as suas reportagens enfeixadas depois no livro Religiões do Rio,
onde aprecia e relata todos os cultos, seitas e religiões existentes na época
e por ele vistos, não se referindo ao nome umbanda que, embora conhecido e
usado nesse período ao que parece, não tinha galgado a evidência e nem definia
um culto de largas proporções. Entretanto, sua prática no Rio de Janeiro
remonta ao tempo do Império, quando na Serra dos Pretos Forros, no Lins
de Vasconcelos, atual Estrada Grajaú-Jacarepaguá, pontificavam diversas
casas de culto, cada uma dentro de uma linha tradicional africanista. Já
no tempo da República se achavam espalhadas pelos diversos bairros, porém
com a característica afro-brasileira bem nítida.
Sobressaíam-se os rituais de Angola, do Congo, de Guiné, Moçambique, Cabinda,
Monjolo, Cassange, de Rebolo, Cabula, Muçurumi, como a Linha das Almas, Linha
do Mar, Linha de Mina, e as chamadas Linhas Cruzadas, bem como a de Nagô.
Começou a fusão praticamente, depois da Luta dos Ogãs, na década de 1910 a
1920, pois os baianos que até então não se entrosavam nas cultuações, seguindo
a tradição nagô dos candomblés (as macumbas como eram chamadas), foram aos
poucos convivendo no conjunto religioso. Embora predominasse o culto de Angola,
tinha uma apresentação distanciada da rigidez do misticismo baiano, como o
Muçurumi do Rio de Janeiro, e os terreiros eram mais conhecidos como bandas
ou pelo nome das entidades, ou dos seus dirigentes. Assim, muitos já haviam
surgido no Morro do Castelo, de Santo Antônio, na Mangueira e de Morro de São
Carlos, entre outros.
No conjunto de cultos bantos, no Rio de Janeiro, o nome "umbanda" foi mais
preponderante no decênio de 1920 a 1930, concorrendo, para isso, uma aglutinação
pelos recessos motivados pelas perseguições havidas dos governos, pois, nessa
época apenas se favorecia ao kardecismo. Mesmo assim, muitos centros foram
surgindo, como, por exemplo, a Tenda Espírita Mirim, fundada a 13 de outubro
de 1924, praticando o ritual de Umbanda, sendo o nome comum de Tenda Espírita,
que usavam os centros praticantes desse ritual. Na época não havia liberdade
religiosa. Todas as religiões que apontavam semelhanças com rituais africanos
eram perseguidas, os terreiros destruídos e os praticantes presos. Entre os
inúmeros episódios desse tipo, destacou-se, por exemplo, o da chamada Quebra
de Xangô, em Maceió, no estado de Alagoas, a 2 de fevereiro de 1912.4 . Em uma
ação organizada pela Liga dos Republicanos Combatentes, os mais importantes
terreiros de Xangô foram destruídos na capital alagoana, tendo pais de santo
e religiosos sido espancados e imagens de culto destruídas. A ação teve como
um de seus líderes o ex-governador Fernandes Lima, e visou atingir o então
governador Euclides Malta, conhecido por sua amizade com líderes de religiões
afro-brasileiras.
Detalhe da fachada de uma tenda de Umbanda. Foto de André Luiz Pereira Nunes
Sales, citando Arthur Ramos, diz que o autor chama esse novo produto, a
Umbanda, de jeje-nagô-mussulmi-banto-caboclo-espírita-católico.5 Para Prandi6
e Oliveira7 , a Umbanda deriva da macumba carioca, e surge a partir da
inserção de kardecistas insatisfeitos com a ortodoxia que não permitia a
manifestação de caboclos e preto-velhos por serem considerados "espíritos
atrasados". Ambos os autores a reconhecem como religião brasileira, surgida
nas primeiras décadas do séc. XX, um período de urbanização e industrialização,
o que segundo os mesmos, propiciou e contribuiu para sua formação.
No período de 1930 a 1940, a situação das tendas e terreiros melhorou bastante
através da liberdade consentida e depois assegurada por lei, em 1934. Também
data desse ano o início do Cadastro Policial, quando eram tiradas as licenças
para as chamadas Festas Africanas, na então 4º Delegacia Auxiliar, que também
exigia licença para os incipientes Terreiros de Umbanda.
Diamantino Fernandes Trindade relata em seu livro Umbanda e sua História que
o início da expansão do Movimento Umbandista coincide com a subida ao poder
de Getúlio Vargas, em 1930. Seu regime, de caráter autoritário, se solidificaria,
em 1937, com a criação do chamado Estado Novo. As primeiras lideranças da
Umbanda foram, direta ou indiretamente, ligadas ao regime. Alguns terreiros
exibiam em suas paredes fotos do ditador. Apesar do apoio ao governo, os
praticantes ainda sofreram perseguições e repressões que durariam até 1945.
Uma lei de 1934 enquadrava a umbanda, o kardecismo, as religiões afro-brasileiras,
a maçonaria, entre outras, na seção especial de Costumes e Diversões do
Departamento de Tóxicos e Mistificações do Rio de Janeiro. Trata-se do mesmo
departamento que lidava com álcool, drogas, jogo e prostituição. A lei vigorou
até 1964. Os cultos eram vítimas da extorsão em troca de proteção da polícia,
prática atualmente comum nos jogos de azar. Quando contrariada, a autoridade
se resguardava na justificativa de que a macumba dava cobertura a tipos considerados
comunistas. De acordo com relatos da época, Ogum, o orixá sincretizado com São Jorge,
era identificado na década de 1930, com o Cavaleiro Vermelho. Há relatos de que a
perseguição do governo Washington Luís (1926 a 1930) foi bastante intensa do que no
governo seguinte de Vargas, pois este último teria sido um frequentador assíduo dos
cultos afro-brasileiros.
Pai Jaú, falecido em 1989, ex-atleta de futebol do Corinthians, declarou certa
feita numa reunião do Superior Órgão de Umbanda do Estado de São Paulo (SOUESP),
que várias vezes havia sido preso e sua libertação ocorrera por ordem direta de
Vargas com quem mantinha relações cordiais. Muitos terreiros surgiram do
kardecismo ou foram fundados por espíritas que recebiam caboclos e pretos-velhos,
especialmente foi marcante a influência da Tenda Espírita Nossa Senhora da
Piedade, a qual funcionava no bairro de Neves, em São Gonçalo, fundada a 16
de novembro de 1908, seguindo inicialmente o Espiritismo codificado por Allan Kardec.
Em 1908, o médium Zélio Fernandino de Moraes, sob a influência do Caboclo das
Sete Encruzilhadas,8 recebeu a incumbência de fundar sete centros, os quais
foram instalados na cidade do Rio de Janeiro, entre 1930 e 1937, com os nomes
de Tenda Espírita. Ressalta-se que tenda, na época, eram as casas que funcionavam
em sobrados, comuns na cidade, enquanto o termo terreiro era aplicado aos
centros que funcionavam no mesmo plano da rua.
As sete tendas e seus responsáveis:
Tenda Espírita São Pedro - com José Meireles, em um sobrado da Praça XV de Novembro,
Centro, fundada a 5 de março de 1935 e em funcionamento até 2012 na rua Visconde de
Vila Isabel, 39, Vila Isabel.
Tenda Espírita Nossa Sra. da Guia - com Durval de Souza, na rua Camerino, 59, Centro.
Fundada a 8 de setembro de 1927.
Tenda Espírita Nossa Sra. da Conceição - com Antônio Eliezer Leal de Souza, sem sede
fixa. Fundada a 18 de janeiro de 1918.
Tenda Espírita São Jerônimo - com José Álvares Pessoa (Capitão Pessoa), na rua
Visconde de Itaboraí, 8, Centro. Fundada a 9 de janeiro de 1935.
Tenda Espírita São Jorge - com João Severino Ramos, na rua Dom Gerardo, 45, Praça
Mauá. Fundada a 15 de fevereiro de 1935. Casa de Ogum Timbiri. Foi a primeira das
tendas de Zélio de Moraes a promover sessões de exu.
Tenda Espírita Santa Bárbara - com João Aguiar, sem sede fixa. Em outubro de 1952.
Tenda Espírita Oxalá - com Paulo Lavois, na atual Av. Presidente Vargas, 2567,
Centro. Fundada a 11 de novembro de 1939.
Posteriormente, a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade passou a funcionar na
cidade do Rio de Janeiro, na Praça Duque de Caxias, 231, e em 1960, na rua Dom
Gerardo, 51. Atualmente, se localiza na Cabana do Pai Antônio, em Boca do Mato
(Cachoeiras de Macacu), sob a direção da neta de Zélio, Lygia de Moraes Cunha.
Das sete tendas, apenas duas se encontram em funcionamento até 2012. A Tenda
Espírita São Jorge está sediada à rua Senador Nabuco, 122, em Vila Isabel com
sessões às segundas-feiras. Já a Tenda Espírita Oxalá se localiza à rua Ambiré
Cavalcanti, 298, no bairro Rio Comprido.
O sincretismo entre brancos, índios e negros formou a umbanda
No período, ainda surgiram vários centros como a Tenda Espírita Nossa Senhora
do Rosário, Cabana Espírita Senhor do Bonfim (6 de setembro de 1939, ainda em
funcionamento no bairro de Todos os Santos), Tenda Espírita Fé e Humildade
(em setembro de 1941), Cabana Pai Joaquim de Luanda (Méier, 28 de julho de 1937),
Tenda Espírita Humildade e Caridade, (em setembro de 1941), Centro Espírita
Caridade de Jesus, em Vila Isabel, em 1932, Cabana Pai Thomé do Senhor do Bonfim
(em setembro de 1941), Centro Espírita Religioso São João Batista
(em setembro de 1941), Tenda Africana São Sebastião, Centro Espírita Caminheiros
da Verdade (em 4 de março de 1932, no Engenho de Dentro), Grupo Espírita
Humildes de Jesus (em 12 de dezembro de 1928) e muitos outros, desde a Praça
Onze e Rio Comprido até os subúrbios mais distantes, especialmente nos municípios
limítrofes do Rio de Janeiro.
A 26 de agosto de 1939, foi fundada a Federação Espírita de Umbanda sediada à rua
São Bento, 28, 1° andar, na Praça Mauá, sob a presidência de Eurico Lagden Moerbeck.
O órgão, de 19 a 26 de outubro de 1941, promoveu o Primeiro Congresso Brasileiro
de Espiritismo de Umbanda. No encontro foi proposta a desafricanização da Umbanda
com o intuito de fuga da repressão policial. A comissão foi composta por Jayme
Madruga, Alfredo Antonio Rêgo e o escritor Diamantino Coelho Fernandes, membro
da Tenda Espírita Mirim9 . Como União Espiritualista Umbanda de Jesus (UEUJ),
em 1944, teve papel preponderante na organização, edição e elaboração do livro
O Culto de Umbanda em Face da Lei, entregue ao presidente Getúlio Vargas, no
qual apresentava os anseios e direitos da comunidade religiosa perante a
Constituição e a sociedade brasileira. Em 1947, seu nome foi alterado para
União Espiritista de Umbanda do Brasil. Foi a primeira entidade federativa
do país a congregar os centros já existentes. A União funciona atualmente
à rua Conselheiro Agostinho, 52, em Todos os Santos. Foi também a responsável
pela criação do primeiro periódico sobre o assunto, o Jornal de Umbanda, em 1947.
O objetivo principal na época era o de reunir as diversas tendas, a partir
das sete primeiras, para uniformizar o culto umbandista, estabelecer o uso
do branco no vestuário, homogeneizar as diversas classes participantes e as
práticas ritualísticas de maneira simplificada dentro das diretrizes doutrinárias
preconizadas nas bases estabelecidas, ao se criar estatutos e ordenamentos
legais para evitar as terríveis perseguições ao culto. Se filiaram, entre outras,
a Tenda Espírita Beneficente Santa Luzia, através do irmão Frederico, a Cabana
Espírita Senhor do Bonfim, por Manuel Floriano da Fonseca, a Cabana de Pai
Joaquim de Luanda, por Márcia Justino, além da Tenda Mirim, fundada em 1924,
pelo médium do Caboclo Mirim, Benjamin Gonçalves Figueiredo. A histórica casa
deixou inúmeras filiais, além do Primado de Umbanda, criado em 1952, compondo
uma doutrinação disciplinar e hierárquica bastante contundente. Inicialmente
localizada à rua Sotero dos Reis, 101, na Praça da Bandeira, se transferiu para
a avenida Marechal Rondon, 597, em São Francisco Xavier, em 1942. Contava com
vários colaboradores, entre os quais, o escritor Diamantino Coelho Fernandes,
o Comandante Cícero dos Santos e Olívio Novaes. Já a Casa Espírita Caminheiros
da Verdade, criada a 4 de março de 1932, e dirigida pelo Comendador João
Carneiro de Almeida, se notabilizou como uma das mais influentes no estado.
Está situada à rua Comendador João Carneiro de Almeida, 133, Engenho de Dentro,
sob a liderança de Tarcizo Antonio Carneiro de Almeida.
A seguir, foram criadas diversas tendas umbandistas, no dimensionamento
doutrinário da Linha Branca, sob a orientação do Caboclo das Sete Encruzilhadas
também em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Pará,
Alagoas e Bahia. Não raro, Zélio de Moraes se fazia presente, ou enviava
representantes à organização e direção das novas tendas umbandistas. No
território brasileiro existem muitos templos que foram fundados direta
ou indiretamente pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, incluindo outros
que descendem dos originais. Um caso notório foi o do Tenente Joaquim Bentes
Monteiro que solicitou a sua transferência para Belém do Pará a fim de
fundar e dirigir a Tenda Santo Expedito.
Imagens de Pretos-velhos, grandes trabalhadores da Umbanda. Foto de André
Luiz Pereira Nunes
Em 1940, é fundada por W. W. da Matta e Silva, a Escola Iniciática da
Corrente Astral do Aumbhandan, a Umbanda Esotérica, na Tenda Umbandista
Oriental (T.U.O.), em Itacuruçá, no estado do Rio de Janeiro.
Apesar do esforço inicial e ao longo da história por parte de autores,
líderes e do próprio Caboclo das Sete Encruzilhadas de codificar, dogmatizar
e unificar a ritualística da Umbanda, sempre foi evidente uma autonomia dos
terreiros no que tange à prática do culto. O dirigente, também intitulado
diretor espiritual, pai de santo, zelador ou sacerdote, em conjunto com
o guia-chefe da casa, é o responsável pela própria forma de praticar a
umbanda de acordo com a sua formação, interesses e influências diretas
ou indiretas.
A umbanda pode ser considerada uma união de diferentes tradições religiosas
representadas pelos vários grupos étnicos e sociais existentes no país,
que são frequentemente antagônicos. Os umbandistas têm, contudo, frequentemente,
uma atitude ambígua em relação às tradições afro-brasileiras, o que é um
reflexo também das tendências socioculturais dominantes na sociedade.
A religião se originou na conjuntura de um período político bastante
tumultuado que assistiu, entre outros fenômenos, a emergência de movimentos
nacionalistas e fascistas. Esse desenrolar político culminou na ditadura
de 1937, com o chamado Estado Novo, de Getúlio Vargas. O período de grande
nacionalismo foi marcado pelo começo de ideologia da democracia racial.
Gilberto Freyre, em Casa-Grande e Senzala (1933), era um de seus defensores.
10 Segundo esse pensamento, o igualitarismo racial e seus vários grupos teriam
tido igual importância na formação da civilização brasileira. De acordo com
Diana Brown, em Umbanda: Religion and Politics in Urban Brazil, de 1994,
página 206, se criou uma falsa crença de que o preconceito racial não existia
no Brasil. Mas seus efeitos já se faziam sentir no fim dos anos 1920, com
a nacionalização e institucionalização da cultura afro-brasileira. Práticas
culturais como o carnaval e as escolas de samba, que haviam sido relegadas
ao mais baixo status por causa de sua associação com os negros, foram,
então, reconhecidas como componentes importantes da cultura nacional. Os
estudiosos brasileiros também começaram a se interessar seriamente pela
cultura afro-brasileira, que, desde o início, era vista de forma exótica
e folclórica. Nesse ínterim, a ditadura aboliu os movimentos negros que
lutavam contra a discriminação racial, a qual continuaria profundamente
enraizada na realidade social brasileira.
O espiritismo, especialmente o pejorativamente chamado baixo espiritismo
representado pelas religiões afro-brasileiras, era ainda proibido por lei.
Durante o período da ditadura, em que ocorreu também a formação da umbanda,
a perseguição às pessoas envolvidas se intensificou. Contudo, a repressão
era voltada aos praticantes do então baixo espiritismo, ou seja, as religiões
afro-brasileiras. Por conseguinte, os umbandistas, por questão de sobrevivência,
passaram a se identificar com o termo espírita, usado apenas pelos espíritas
kardecistas. Ao optarem por essa denominação, os praticantes se associaram
2com o kardecismo e com o então chamado alto espiritismo. Portanto, o termo
espírita foi amplamente utilizado como fuga da repressão e ainda para dissociar
os praticantes das novas religiões de sua ascendência afro-brasileira, um gesto
que recorda o uso do sincretismo católico nos cultos afro-brasileiros durante o
período da escravatura.11
A ideologia da democracia brasileira era legitimada e manifestada por uma hegemonia
branca. Nesse contexto houve a primeira tentativa de legitimar a umbanda como religião.
A legitimação envolveu a desafricanização e o embranquecimento da Umbanda. Em 1939,
alguns fundadores dos centros originais da Umbanda do Rio de Janeiro, inclusive
Zélio de Moraes, estabeleceram a primeira federação de Umbanda, a União Espiritista
de Umbanda do Brasil (UEUB). A federação foi criada para dogmatizar, unificar,
defender e organizar a Umbanda como uma religião coerente e hegemônica e assim
obter legitimação social. Em 1941, a União promoveu o Primeiro Congresso de Espiritismo
da Umbanda, uma tentativa de definir e codificar a Umbanda como uma religião com
direitos próprios que uniria todas as religiões, raças e nacionalidades. A conferência
é ainda conhecida por promover maior dissociação com as religiões afro-brasileiras.
Os participantes ainda concordaram em utilizar a obra de Allan Kardec como a doutrina
operante da Umbanda. Entretanto, os espíritos considerados fundamentais, como os
caboclos e o pretos-velhos ainda eram considerados espíritos muito evoluídos. Os
participantes se esforçaram durante o encontro em legitimar a Umbanda como uma religião
bastante evoluída. Declarou-se que que existia como uma religião organizada há bilhões
de anos, e portanto estaria à frente de outras religiões12 .
No esforço em legitimá-la como uma religião original e evoluída, os participantes
procuraram dissociá-la de suas raízes afro-brasileiras. A origem da Umbanda foi então
traçada no Oriente de onde, se dizia, teria se espalhado para a Lemúria, um continente
remoto e perdido, e daí para a África. No continente africano a Umbanda degenerou em
fetichismo. Dessa forma foi trazida para o Brasil pelos escravos negros13 . A influência
africana da Umbanda não era negada, mas vista como corrupção da tradição religiosa
original, na sua fase anterior de evolução. A Umbanda, teria ficado exposta ao barbarismor/>
africano, na sua forma vulgar dos costumes, praticada por povos de costumes rudes,
defeitos psicológicos e étnicos14 . Outro jeito de sublinhar o caráter africano da
umbanda foi expresso no reconhecimento de que ela se originou na África, mas na África
Oriental (Egito), portanto, na parte mais ocidental e civilizada do continente15.
O caboclo, entidade presente na Umbanda. Foto de André Luiz Pereira Nunes
Um dos objetivos da conferência era o de traçar as raízes genuínas da Umbanda no
Oriente. A invenção de raízes orientais, somada à negação das africanas, refletiu
na definição do termo umbanda, que se crê geralmente derivado da África. Declarou-se
que Umbanda seria oriundo do sânscrito aum bhanda, termos que foram traduzidos como
limitado no ilimitado, Princípio Divino, luz radiante, fonte de vida eterna e evolução
constante16 . Os participantes do congresso se esforçaram em associa-lá às tradições
religiosas esotéricas europeias e as novas correntes religiosas da Índia, representadas
pela Vivekananda.
A influência africana da umbanda foi reconhecida como um mal necessário que serviu
meramente para explicar sua chegada e desenvolvimento no Brasil. O Candomblé,
centralizado no nordeste do Brasil, era olhado como um estágio anterior da Umbanda,
que havia se desenvolvido no sudeste. O Candomblé, ainda notabilizado pela barbárie
dos rituais africanos, era assim associado com a magia negra. A lavagem branca da
origem da Umbanda era expressa em termos como Umbanda Pura, Umbanda Limpa, Umbanda
Branca e Umbanda de Linha Branca associada à magia branca. Os termos faziam oposição
à magia negra, associada ao mal. Ademais, criou-se uma espécie de divisão de espíritor/>s.
A linha daqueles que se encontram à direita, os bons, e os da esquerda, maus,
representados pela magia negra. As únicas instâncias de identificação positiva da<
br/>
influência africana da Umbanda eram os pretos-velhos, considerados pessoas simples
e humildes, mas espíritos muito evoluídos. Já a África era tida como um continente
heroico e sofredor.
A atitude dos participantes em relação à herança religiosa africana era assim
caracterizada pela ambiguidade. Elas eram positivas e negativas, oscilando da
tentativa de dissocia-los das tradições religiosas africanas até sua atitude
distintamente paternalista para com a África, a quem classificavam com a imagem
de humilde escrava. Os negros brasileiros eram aceitos porque afinal tinham alm
a
branca17 .
Em 1945, José Álvares Pessoa, conhecido como Capitão Pessoa, dirigente da Tenda
Espírita São Jerônimo, obteve junto ao Congresso Nacional a legalização da prática
da Umbanda. Segundo ele, em entrevista Leal de Souza, transcrita na página 439,
do livro de Roger Bastide, As religiões africanas no Brasil, a fundação da Umbanda
foi decidida em Niterói (estado do Rio) há mais de trinta anos, em uma macumba
que ele visitava pela primeira vez. Até ali, ele fora um espírita kardecista.
O pai de santo investiu-o dos poderes de presidente da Tenda de São Jerônimo,
que deveria funcionar na capital, e lhe disse que importava organizar a Umbanda
como religião.
Em 1947, surgiu o Jornal de Umbanda, que durante mais de duas décadas, foi o
porta-voz doutrinário do culto umbandista, tendo como colaboradores Cavalcanti
Bandeira, Olívio Novaes, J. Alves de Oliveira, W. W. da Matta e Silva, entre
outros.
Em 1950, os defensores das práticas africanistas na umbanda, liderados pelo
tata ti inkice (sacerdote na etnia banta) Tancredo da Silva Pinto, relegados
do primeiro congresso e da União Espiritista de Umbanda do Brasil, fundaram
a Confederação Espírita Umbandista do Brasil, a qual existiu até 1967. Após
a instauração do Regime Militar no país, a partir de 1964, a entidade vivenciou
dificuldades de relacionamento entre elementos da sua administração. Tancredo,
insatisfeito, desligou-se, vindo a constituir com outros companheiros, em 20
de Janeiro de 1968, a Congregação Espírita Umbandista do Brasil (CEUB). Após
o falecimento de seu presidente e fundador, em 1979, seu braço-direito,
Martinho Mendes Ferreira, assumiu a instituição, a qual seria entregue a
Fátima Damas, a atual presidente, antes de morrer. É importante frisar que
apesar das perseguições policiais, os defensores do africanismo continuariam
as suas práticas, ao adicionar elementos como o cavaquinho, e promover rodas
de samba para iludir a repressão policial. Tancredo, através de uma coluna
semana no jornal O Dia, recomendava uma forma africana para os rituais. Ele
conquistou grande liderança entre os mais humildes.
Com o intuito de divulgar os cultos afros, Tancredo criou as festas religiosas
de Yemanjá, no Rio de Janeiro, a festa a Yaloxá, em Pampulha, Cruzandê, em
Minas Gerais, a festa do Preto-Velho, em Inhoaíba, homenageando a grande
yalorixá Mãe Senhora, na cidade do Rio de Janeiro, a festa de Xangô, em
Pernambuco, além do evento Você sabe o que é Umbanda?, realizado no Estádio
do Maracanã, na administração de Carlos Lacerda, e finalmente a festa da
fusão do estado do Rio de Janeiro com a Guanabara, realizada no centro da
Ponte Rio-Niterói.
Em 1956, os representantes das duas correntes, superaram algumas divergências
e formaram uma coligação que reunia as principais federações do Rio de Janeiro.
A organização recebeu o nome de Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul e tinha
a União Espiritista de Umbanda do Brasil como principal articuladora. Tancredo
da Silva Pinto esteve presente e chegou a ser um dos presidentes. Por
conseguinte, em 1960, os umbandistas ganharam força e conseguiram eleger
vários candidatos em alguns estados. Em 1958, o falecido Átila Nunes, conceituado
radialista e dono do programa Melodias de terreiro, fora eleito no Rio de Janeiro.
Relata Diamantino Fernandes Trindade, que ainda na década de 1950, houve a
penetração no Rio Grande do Sul, através de Moab Caldas, que chegou a ser
eleito deputado estadual. Ocorreu ainda uma rápida expansão para o estado
de São Paulo. Pai Jaú, Sebastião Costa e o Tenente Vereda, que participaram
do Primeiro Congresso de Umbanda, em 1941, já haviam criado a Liga de São
Jerônimo no ano seguinte. Em 1953, foi registrada em cartório a primeira
federação de São Paulo, a Federação Umbandista do Estado de São Paulo (FUESP),
fundada por Costa Moura. Outras associações foram fundadas, tais quais, a
União de Tendas Espíritas de Umbanda do Estado de São Paulo (UTEUESP), fundada
por Luis Carlos de Moura Acciolli, o Primado de Umbanda, de Félix Nascente
Pinto, a Associação Paulista de Umbanda, de Demétrio Domingues. Em 1968, a
UTEUESP passou a registrar roças de Candomblé e mudou sua denominação para
UUTEUCESP (União de Tendas Espíritas de Umbanda e Candomblé do Estado de São Paulo)
sob a direção de Jamil Rachid. Em 1973, surgiu a FUGABC (Federação Umbandista
do Grande ABC), dirigida por Ronaldo Linhares.
Em 1961, ocorreu o Primeiro Congresso Umbandista do Estado de São Paulo,
organizado pelo General Nelson Braga Moreira. No mesmo ano aconteceu na
Associação Brasileira de Imprensa (ABI) o Segundo Congresso Brasileiro de
Umbanda, no Rio de Janeiro, presidido por Henrique Landi Júnior, eleito pelas
comissões organizadoras, e secretariado pelo escritor João de Freitas. Ao
assumir a presidência, passou a coordenar os trabalhos das comissões e reuniões
preliminares em outros estados. Quando todas já estavam com suas teses elaboradas,
ocorreu no Maracanãzinho, a 28 de junho de 1961, a festa de congraçamento, na
qual compareceram cerca de quatro mil médiuns uniformizados, além de grande
público assistente. Cavalcanti Bandeira apresentou a tese, aprovada, de que
o vocábulo Umbanda é oriundo da língua quimbundo e significa "arte de curar".
Nesse congresso o Hino da Umbanda foi oficialmente adotado em todo o Brasil
em caráter oficial. Houvera sido composto por um cego, ainda na década de 1960,
chamado José Manoel Alves, que em busca de sua cura procurou o auxílio do
Caboclo das Sete Encruzilhadas. Mesmo não obtendo êxito, escreveu a letra para
mostrar que era possível vislumbrar o mundo e a religião à sua maneira. Zélio
de Moraes a apreciou tanto que decidiu apresentá-la no Segundo Congresso.
Já a melodia foi composta por Dalmo da Trindade Reis18 .
De acordo com o escritor Diamantino Fernandes Trindade, em seu livro
"Umbanda Brasileira - Um século de história", de 2009:
Cquote1.svg O Colegiado Espírita do Cruzeiro do Sul organizou o
Segundo Congresso Nacional de Umbanda, em 1961, no Rio de Janeiro. Um
dos objetivos desse evento era fazer uma avaliação das mudanças ocorridas
no panorama umbandista nos vinte anos que se passaram desde o primeiro
evento, em 1941. O Congresso ocorreu no Maracanãzinho e milhares de
umbandistas estiveram presentes, incluindo dessa vez, representantes de
dez estados e vários políticos municipais e estaduais. Esse evento foi
organizado por Leopoldo Bettiol, Oswaldo Santos Lima e Cavalcanti Bandeira.
A comissão paulista foi a mais numerosa e representativa, com a participação
de Félix Nascente Pinto, General Nélson Braga Moreira, Dr. Armando Quaresma
e Dr. Estevão Monte Belo. Neste congresso definiu-se a criação do Superior
Órgão de Umbanda para cada Estado, congregando as Federações. Apenas o
estado de São Paulo conseguiu criar o então chamado SOUESP (Superior Órgão
de Umbanda do Estado de São Paulo) marcando presença no congresso posterior.
Também nesse Congresso foi apresentada uma tese diferente da que havia sido
veiculada no primeiro sobre a "Interpretação histórica e etimológica do
vocábulo Umbanda", tese apresentada por Cavalcanti Bandeira em contraponto
à tese de Diamantino Fernandes, delegado representante da Tenda Mirim, que,
no Congresso de 1941, situava a palavra tendo origem em antigas civilizações
e no sânscrito. Cquote2.svg
—
19 .
Na oportunidade, se constituiu o SOUESP (Superior Órgão de Umbanda do Estado
de São Paulo). Algumas discordâncias políticas fizeram com que outras
federações se unissem em torno do Tenente Hílton de Paiva Tupinambá,
em 1976, e fundassem o SOUCESP (Supremo Órgão de Umbanda e Candomblé do
Estado de São Paulo) que se tornou forte oponente do antecessor. Durante
as décadas de 1960 e 1970, a umbanda atrai olhares curiosos do mundo
inteiro e se torna manchete de jornais e revistas. Muitos discos são
lançados contendo os pontos cantados. Manchete e Planeta são publicações
que destinam sempre notícias ou estudos sobre a religião, cujo exotismo
despertava a atenção das pessoas.
Em 1973, foi realizado novamente no Rio de Janeiro, de 15 a 21 de julho,
no Estádio de São Januário, o "Terceiro Congresso Brasileiro de Umbanda",
sob o comando de Cavalcanti Bandeira. No evento, o dia 15 de novembro foi
instituído como o "Dia Nacional da Umbanda", legitimando, assim, a
manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas como fundador da religião
e Zélio de Moraes como seu pioneiro, dois anos após o seu desencarne.
Diamantino Fernandes Trindade relata a respeito em sua obra "Umbanda
Brasileira - Um século de história", de 2009: "em 1973, realizou-se no
Rio de Janeiro o Terceiro Congresso Nacional de Umbanda". A revista Mundo
de Umbanda, número 1, de 1973, publicada pelo Primado de Umbanda, fazia
referências às destemidas atuações de Cavalcanti Bandeira e outros
umbandistas para a realização do evento. A revista citava: "os umbandistas
desejam consolidar o Dia da Umbanda e preservar os rituais comuns e afins,
proclamando o desejo de congregarem num colegiado nacional os órgãos
associativos e federações estaduais, a fim de evitar as distorções e os
abusos que são cometidos em nome da umbanda". Segundo a revista, os temas
propostos abordavam: aspectos doutrinários e filosóficos; sincretismo
religioso; teologias e crenças; moral e ética religiosas; práticas e
rituais; iniciação e desenvolvimento; organização religiosa; música
dança e cânticos; simbologia; aspectos administrativos; os cultos e a
legislação oficial; órgão nacional interfederativo; temas livres e teses
sobre a Umbanda.
O Rio de Janeiro foi representado pelas mais importantes autoridades
da umbanda. São Paulo foi representado pelo SOUESP, por meio de seu
presidente, general Nelson Braga Moreira. Outros estados representados
foram: Paraná, Rio Grande do Sul, Piauí e Santa Catarina. Wheatstone
Pereira propôs a criação da Cartilha Umbandista e José Maria Bittencourt
apresentou um trabalho sobre Casamento e Batismo na Umbanda, ambos
aprovados por unanimidade. Nesse evento, a religião umbandista afirmou-se
como uma das que mais crescem no Brasil e uma força significativa no
campo das atividades sociais. Nessa época, diversos terreiros contavam
com escolas, creches, ambulatórios etc. Após o Congresso, foram fundadas
onze novas federações, dentre elas a Associação Paulista de Umbanda e a
Federação de Centros Espíritas e de Umbanda do Estado de São Paulo.20
A 12 de setembro de 1977, no Rio de Janeiro, foi criado o Conselho
Nacional Deliberativo de Umbanda (CONDU), estabelecido à rua Sá Viana,
69, no Grajaú, sob a presidência do General Mauro Porto. Seu objetivo
que era o de agrupar as federações de Umbanda espalhadas pelo Brasil. O
núcleo inicial era composto por cinco grupos: Confederação Nacional Espírita
Umbandista dos Cultos Afro-brasileiros, Congregação Espírita Umbandista do
Brasil, União Espiritista de Umbanda do Brasil, Primado de Umbanda e
Federação Nacional das Sociedades Religiosas de Umbanda. Depois outras
entidades se agregaram. Chegou a reunir 46 associações. Contudo, no decorrer
da década de 1980, por conta da morte de dirigentes e a consequente
extinção de várias federações, a entidade perdeu força e encerrou suas
atividades. Sua fase de maior êxito ocorreu no decorrer da década de
1970 quando chegaram a integrar seu quadro o pesquisador e escritor José
Beniste, a presidente e fundadora da Tenda de Umbanda Luz, Esperança,
Fraternidade (TULEF), Lília Ribeiro, falecida em abril de 2004, o pai
de santo e escritor, Ney Néri dos Santos, conhecido como Omolubá, o
escritor Celso Rosa (Decelso da Congregação Religiosa Umbandista Brasileira,
Loris Lugheri, da Cruzada Federativa de Umbanda de SP, o presidente da
Congregação Espírita Umbandista do Brasil (CEUB), Martinho Mendes
Ferreira, o campista José Raymundo de Carvalho, o presidente da Aliança
Umbandista do Estado do Rio de Janeiro (ALUERJ), Floriano Manoel da Fonseca,
Evaldo Pina e ainda membros de fora do estado do Rio de Janeiro, entre os
quais, Carlos Alberto Dias Bellone (Confederação Umbandista do Paraná),
Abrumolio Vainer (Círculo Umbandista do Brasil) (SP), Rosalvo da Cunha
Leal (CNEUCAP – RJ), Asy Sgambato (Congregação Religiosa Umbandista
Brasileira) (RJ), José Vareda e Silva (SP), Raymundo Viriato Baptista
Rodrigues (AM), Guiomar Bussili (SP), Carlos Leal Rodrigues (PB), Marne
Franco Rosa (RS), Joaquim Brito de Carvalho (SP), Djalma Rodrigues da
Rocha (PI) e Flávio Nicolino (SC). Os arquivos do finado CONDU, que se
encontravam em poder de Lília Ribeiro, passaram às mãos de José Beniste,
o qual enfim os entregou aos cuidados de Fátima Damas, presidente da
Congregação Espírita Umbandista do Brasil21 .
Durante a ditadura militar (1964-1985), a umbanda obteve reconhecimento
oficial e legitimação, por conta do projeto nacionalista. O regime
diretamente apoiou a Umbanda para usá-la com o objetivo de manipular
as massas, causando o desprezo dos que estavam na oposição ao governo.
Por volta de 1974, os praticantes de umbanda, declarados e não declarados,
foram estipulados em mais ou menos um quarto da população do Brasil.
Perseguição neopentecostal[editar | editar código-fonte]
A partir dos anos 1980, a umbanda enfrentou forte oposição das igrejas
neopentecostais, interessadas em se expandir e abarcar o maior número
possível de fiéis. Começou o período de intensa decadência da religião.
Ao iniciar suas atividades nos anos 1950, a Igreja Evangélica Pentecostal
ganhou muitos seguidores e influência na América Latina. Os pentecostais
tentaram converter, e algumas vezes, perseguiram os seguidores da umbanda
e outras religiões afro-brasileiras. Alegavam que a umbanda seria uma
veneração aos demônios, além de prática de magia negra. Já a incorporação
dos orixás seria uma forma de possessão demoníaca.22
Em 2005, no estado de São Paulo, a umbanda ganhou uma decisão contra
um canal de televisão patrocinado pelos pentecostais. O Ministério
Público declarou ilegal que programas de televisão se referissem às
religiões afro-brasileiras de forma derrogatória e discriminatória.
Ainda assim, as igrejas pentecostais converteram muitos umbandistas,
especialmente entre as camadas mais desfavorecidas da população. Em
meados dos anos 1980, a favela Dona Marta, no Rio de Janeiro, contava
com seis terreiros de umbanda, um terreiro de candomblé e um centro
espírita. Surgiram, no lugar, oito igrejas neopentecostais.23
Ainda hoje, apesar de existirem leis que reprimem o preconceito e a
intolerância religiosa, os umbandistas enfrentam grandes preconceitos
por parte da sociedade em geral. A intolerância não perdoa nenhuma faixa
etária ou hierarquia religiosa, atingindo idosos, homens, mulheres e
crianças, não respeitando sequer o princípio universal de amor e compaixão
para com o próximo e a total liberdade de crença.24
Atualmente, a Lei 11 635, referendada em 27 de dezembro de 2007 pelo
ministro Gilberto Gil e sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da
Silva, estabeleceu o dia 21 de janeiro como o Dia Nacional de Combate à
Intolerância Religiosa. Aponta-se essa data como provável causa da escolha,
pois ocorreu o aniversario de falecimento da Mãe Gilda de Ogum, mãe de santo,
que sofreu um infarto fulminante após ver seu nome e imagem atrelados a uma
reportagem do Jornal Folha Universal da Igreja Universal do Reino de Deus
em uma matéria intitulada Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos
clientes e ter seu terreiro invadido por fiéis neopentecostais.25
No que diz respeito aos cultos religiosos de matriz afro-brasileiros, a
umbanda em especial, a grande maioria das pessoas é influenciada pelo senso
comum de que a umbanda é coisa do mal, primitiva e pagã. Apontam-se, para
tal repúdio, diversos fatores, porém o que chama mais atenção é a crueldade
com a qual o Bispo Edir Macedo descreve a umbanda. Em seu livro publicado
pela Editora Gráfica Universal Ltda., no ano de 1990, intitulado Orixás,
Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?, há uma análise preconceituosa,
distorcida e ofensiva sobre a umbanda e suas entidades. O que chama mais
atenção para o conteúdo de tal livro é a influência que é exercida sobre
os seguidores dessa religião. Ele insufla seus fiéis a serem preconceituosos
e a desrespeitar os umbandistas.26
Edir Macedo é profícuo na publicação de obras polêmicas. No final da década
de 1980, sua obra Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios? foi recolhida
por determinação judicial em vários estados brasileiros. A Justiça entendeu
que o objetivo da obra era de propor uma ação persecutória aos adeptos das
religiões de matriz africana, além de demonizar e reprimir as práticas da
referidas religiões. Apesar disso, ainda é possível se encontrar a publicação
em várias igrejas neopentecostais e na própria sede da IURD.27
O mau exemplo dado por líderes religiosos como Edir Macedo só faz aumentar
o preconceito contra as religiões de matriz africana, e anula quaisquer
possibilidades de se erradicar a intolerância religiosa. Em uma sociedadecujo
homem desfruta do livre arbítrio, o que deve predominar é o respeito à
pluralidade e as diversas formas de manifestações divinas. Episódios tristes
diariamente chamam a atenção para o preconceito que os adeptos das religiões
afros sofrem. Terreiros constantemente são invadidos por fiéis das igrejas
neopentecostais da Universal do Reino de Deus. Tal preconceito se reflete nas
ruas, nas escolas e em locais públicos como hospitais.28
Em janeiro de 2013, a ministra Luiza Barros, da Secretaria de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial, declarou que os evangélicos estão mais intolerantes
e desejam acabar com as religiões de matriz africana.29
O legado de Zélio de Moraes[editar | editar código-fonte]
Zélio de Moraes era branco, de classe média e filho de um espírita kardecista.
Ele afirma que, em 1920, o espírito que encarnara como o jesuíta Gabriel
Malagrita, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, se revelou a ele e lhe disse
que ele seria o fundador de uma nova religião, genuinamente brasileira,
dedicada a dois espíritos brasileiros: o caboclo e o preto-velho. Ambas
essas entidades eram frequentemente rejeitadas e tidas como atrasadas pelos
kardecistas. Em meados dos anos 1920, Zélio fundou seu primeiro centro de
umbanda e nos anos seguintes vários outros centros de Umbanda foram fundados
por iniciativa do seu caboclo que assumira essa denominação "porque não
haveriam caminhos fechados para mim".
Como Zélio, os primeiros fundadores de centros de umbanda eram antigos kardecistas
e de classe média branca. Eles consideravam o espiritismo kardecista inadequado,
pois eram médiuns de caboclos e pretos-velhos. Portanto, adquiriram gosto pelos
espíritos africanos e indígenas da macumba, os quais acharam muito mais
competentes e eficientes que os espíritos kardecistas para o atendimento e cura
de doenças. Além do mais, os rituais da macumba eram considerados mais emocionantes
que as sessões pouco ritualizadas do espiritismo kardecista. Se os então
kardecistas foram inspirados por certos aspectos da macumba, entretanto,
repeliram outros, tais quais, os sacrifícios de animais; os exus, considerados
espíritos ruins; além da conduta frequentemente grosseira e o ambiente social
baixo dos centros de macumba.30 É importante frisar que a Tenda Espírita São
Jorge, ao contrário das demais fundadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas,
sempre realizou sessões de exu, contrariando o ritual estabelecido.
Por seu turno, o Caboclo das Sete Encruzilhadas, que comumente era chamado O
chefe pelos seus adeptos, nunca permitiu que seu médium recebesse qualquer tipo
de recompensa pelos trabalhos prestados. Portanto, ele nunca exerceu sua mediunidade
como profissão. Trabalhava para sustentar a família e muitas vezes para manter
as tendas fundadas pelo chefe, que dizia que a Umbanda é a manifestação do Espírito
para a caridade.
Em 1967, após 59 anos de atividade junto a Tenda Nossa Senhora da Piedade, entregou
a direção dos trabalhos às filhas Zélia e Zilméia, passando a viver no distrito
de Boca do Mato, em Cachoeiras de Macacu, a 160 km do Rio de Janeiro, ao lado de
sua esposa Dona Isabel, falecida em 1981, médium do Caboclo Roxo. Nesse recanto,
privilegiado da natureza, continuou a atender os necessitados do corpo e da alma,
na Cabana de Pai Antonio.
Segundo suas filhas Zélia e Zilméia, muitas vezes elas precisaram acolher desabrigados
e doentes que seu pai trazia para casa e que de lá só saíam quando estavam curados.
Não raro, ficava sem dinheiro para dar às pessoas que batiam à sua porta. Depois
de 66 anos de mediunidade, Zélio faleceu no sábado, 3 de setembro de 1975, tendo
podido dizer de cabeça erguida:
Cquote1.svg O Caboclo das Sete Encruzilhadas nunca determinou o sacrifício
de aves e animais, quer para homenagear entidades, quer para fortificar a minha
mediunidade... Nunca recebi um centavo pelas curas praticadas pelos guias. O
Caboclo abominava a retribuição monetária ao trabalho mediúnico. Não há ninguém
que possa dizer, no decorrer destes 66 anos, que retribuiu uma cura (e foram aos
milhares) com dinheiro. Cquote2.svg
—
Ronaldo Linhares, presidente da Federação Umbandista do Grande ABC, gravou a última
mensagem do Caboclo das Sete Encruzilhadas que na íntegra diz o seguinte:
Cquote1.svg Meus irmãos: sejam humildes. Tragam amor no coração para que vossa
mediunidade possa receber espíritos superiores, sempre afinados com as virtudes que
Jesus pregou na Terra, para que os necessitados possam encontrar socorro nas nossas
casas de caridade. Aceitem meu voto de paz, saúde e felicidade com humildade, amor
e carinho.
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